• Ana Eliza Port Lourenço

Desafios do ensino remoto para escolas e famílias

Com a pandemia da COVID-19, as atividades escolares presenciais foram substituídas pelo ensino remoto. Repentinamente, as escolas e as famílias tiveram que lidar com diversas mudanças relacionadas com ferramentas tecnológicas, com as relações sociais e afetivas, e com diferentes formas de trabalhar e aprender. Já estamos completando cinco meses de aulas presenciais suspensas e são muitos os desafios. Trazemos nesta matéria destaques da entrevista que o NESANE fez com a pedagoga Sonerline Miguel da Siva sobre esses desafios, formas de superá-los e sobre perspectivas educacionais para nossas crianças e jovens neste contexto tão delicado de pandemia global.


Foto: Gabriela Vieira de Souza Guimarães & Ana Eliza Port Lourenço


A entrevista foi conduzida pela professora Ana Eliza Port Lourenço, no dia 14 de agosto de 2020, e teve como debatedoras a professora Priscila Vieira Pontes e a graduanda de Nutrição da UFRJ Sonia Modolo. A gravação da entrevista está disponível na íntegra no canal do NESANE.


NESANE: São muitos os desafios neste período de ensino remoto. Na sua opinião, qual o principal desafio?


Sonerline: São alguns desafios. Lembrando que tudo começou numa sexta-feira que fomos trabalhar e, de repente, fomos comunicados que as escolas deveriam fechar por 15 dias. Não houve tempo de conversar com os alunos, nem com as famílias. No início, a maior preocupação foi o acolhimento dos alunos e depois começou a preocupação com a parte pedagógica. Outras preocupações vão surgindo, mas sempre consideramos que a preservação da vida é o mais importante.


Posso dizer que o maior desafio, até hoje, é chegar até o aluno. Muitos alunos tem dificuldades com a falta de equipamento e de acesso à internet. Essa pandemia escancara as desigualdades sociais.


Esse desafio da falta da internet, o professor também tem. Também tem a dificuldade de como utilizar, e isso foi pra todos! De repente a gente se viu, nossa, abriu um mundo que eu particularmente não conhecia, e não sou uma pessoa alheia à tecnologia. O professor tem sido muito desafiado, até hoje.


Outro desafio é contar com a parceria da família, principalmente para as crianças pequenas. A escola conta com a família para desenvolver o que planeja para as crianças. A família entra como um terceiro sujeito nessa relação [entre professor e aluno].


NESANE: Na sua experiência, como vocês ponderam a conduta pedagógica no ensino remoto considerando as diferentes realidades do ensino público e privado?


Sonerline: Existem preocupações diferentes. Na rede pública, a necessidade do acolhimento é um pouco maior, porque sabemos que têm crianças que vivem em situação de vulnerabilidade social. A gente precisou pensar tudo isso na hora de planejar. O professor teve que combinar junto com as famílias. Os procedimentos não tem sido iguais para todos os alunos, nem mesmo dentro da mesma escola.


No início, na escola privada principalmente, a gente teve uma ilusão na cabeça de que era só transferir a escola pra casa. E com o tempo a gente percebeu que isso não existe! A gente teve que repensar muito, qual a quantidade de intervenção pedagógica que vai ter dentro de casa? Porque a gente não podia, e não pode, perder de vista que a gente está falando de preservação da vida, que têm famílias que estão vivendo o luto, ou que vivem o medo, um medo que todos estamos vivendo. E isso tem que fazer parte desse planejamento também.


NESANE: Eu (Profa. Priscila Pontes) tenho o João, de 7 anos, que está no segundo ano do fundamental I. Com a pandemia, meu marido e eu passamos a ter que assumir o papel de professores dele, e está sendo um desafio enorme para nós. Existe até divergência entre eu e meu marido sobre a forma de ensinar alguns conteúdos. Eu queria ouvir a sua experiência e saber como você pode nos orientar (e a outros pais) quanto a isso.


Sonerline: Primeiro preciso trazer que para crianças pequenas, como o João, há muita confusão na cabeça delas. Elas não entendem que, de repente, a escola passou a estar dentro da casa delas. E é difícil o responsável assumir o papel de professor, até porque o comportamento do filho no espaço escolar é completamente diferente do comportamento no ambiente familiar. É importante que as famílias conversem com a escola para ver como minimizar os conflitos que acontecem.


É ilusão achar que 2020 é um ano normal e que todo o conteúdo planejado antes da pandemia será trabalhado de forma remota. O mais importante é estimular a autonomia das crianças, trabalhar conceitos de colaboração e empatia, e desenvolver habilidades e competências que são possíveis de trabalhar em casa como, por exemplo, a criança ocupar o espaço da cozinha e realizar tarefas de casa. Na nossa cabeça a criança aprende sentada e ouvindo. Mas não é assim. Então é importante a interação com a família, através de jogos e estímulo à imaginação e à leitura.


Outra orientação que dou é que as famílias busquem conhecer o projeto político pedagógico da escola para entender melhor as decisões da escola e caminhar junto. O projeto pedagógico coloca em prática o que a escola acredita como processo de ensino-aprendizagem e há a preocupação que esse projeto seja assegurado, mesmo com o ensino remoto.


NESANE: Muitos pais estão preocupados com o conteúdo pedagógico, com o processo de avaliação e com o nivelamento dos alunos. O que você pode dizer para tranquilizar esses pais?

Sonerline: A ideia que temos de que o conhecimento se dá de forma linear é que gera essa preocupação. Meu filho vai ser aprovado? Ele está aprendendo de fato? Esta resposta nós não teremos agora, pois a avaliação é uma coisa muito próxima, é preciso estar perto do aluno, ver ele fazendo, desenvolvendo a atividade. Creio que só quando voltarmos que esta avaliação será feita, de fato.

Tem escolas que estão fazendo avaliações para tentar aferir esse aprendizado. Outras optaram pela devolução do material, porém isso não é uma forma assertiva, pois você não viu em que contexto essa atividade foi realizada. Creio que todas as escolas, em todas as esferas, terão que rever todo esse processo, e pode levar dois, três anos, para colocar este ano de 2020 no lugar.

Então as famílias, neste momento, têm que estar preocupadas em apoiar as crianças, estar junto, evitar comparações. As comparações são muito duras para as crianças e também para nós, adultos. Há muito desespero por parte dos pais, que às vezes querem desistir. Mas o importante é que a escola está atuando. Por certo erramos muito, e vamos continuar errando, mas esta atuação é muito significativa para as crianças. A felicidade delas é muito grande em rever os amigos, os professores, mesmo que remotamente. O importante é que as famílias tranquilizem as crianças. Meu conselho é que respirem, conversem com os professores, mantenham o diálogo.

NESANE: Ouvi de um adolescente esses dias a seguinte frase: “Ah, pra mim o ensino remoto é igual ir pra escola, mas sem a parte boa que a escola tem pra oferecer”. Muitas crianças e jovens se sentem desmotivados para fazer as atividades propostas no ensino remoto. Como as escolas que você acompanha têm pensado neste problema e orientado os pais quanto a isso?

Sonerline: Da mesma forma que os pequenininhos até dez anos ficam numa felicidade para ver a professora, os adolescentes desligam a câmera! E se as crianças estão tendo muita carga de atividade, os adolescentes estão tendo triplicada. Há muitos anos a escola já não é atrativa para esses jovens. Eles ficam muito desmotivados e não é só na aula online não, é na escola também. Talvez este seja um momento importante para a escola refletir sobre isso e propor mudanças.

O adolescente por natureza precisa ser protagonista. Quanto mais ações de protagonismo, mais envolvimento esse aluno vai ter diante do aprendizado. Eles trabalham muito bem com a tecnologia, fazem vídeos, andam pelas redes sociais fazendo trezentas mil coisas. Vamos buscar atrair esses jovens com essa nova linguagem e deixar nos levar para essa nova linguagem também, que estamos tão distantes ainda.

NESANE: O ensino remoto traz questões de saúde relacionadas com o tempo de tela e inatividade física, alimentação e a saúde mental do estudante como um todo. Em termos pedagógicos, como as escolas que você acompanha têm pensado nesse assunto e orientado os pais quanto a isso?


Sonerline: A orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria é que crianças até 2 anos não tenham acesso a telas. Sabemos que essa não é a nossa realidade. E a partir dessa idade, a orientação é que haja controle do tempo de tela. Falando sobre o ensino infantil, a escola fez a opção de manter uma frequência menor de aulas na semana, intercalando com atividades lúdicas. No ensino fundamental I também tem essa preocupação. E já tive relatos de pais com essa preocupação, que precisam trabalhar e deixar os filhos nas telas.


Minha orientação é, primeiro, aliviar esse sentimento de “culpa” que atinge principalmente as mães. Outra coisa é cuidar para direcionar o uso das telas, que seja feito bom uso. Pensar que nesse período de pandemia, o uso das telas é bem-vindo, pois tem permitido trocas com outras pessoas, com a família. É importante buscar saber o que a criança está assistindo. Se assistiu um desenho, conversar depois sobre o desenho. Agora, é importante evitar usar a tela para substituir o afeto, oferecer o celular ou o tablet quando a criança pede atenção.


NESANE: O retorno às aulas presenciais durante a pandemia está gerando tanta insegurança, incertezas e polêmicas. Vocês já têm um plano para essa retomada?

Sonerline: É a pergunta mais difícil! Primeiro porque a escola não tem autoridade, neste momento, para falar qual é a melhor hora para o retorno. As escolas precisam, de fato, aguardar as autoridades sanitárias. As escolas, assim como os pais, estão na expectativa e existe muita discussão, tanto na rede privada quanto na pública.

Muitos pensam que o retorno se dará quando tiver uma vacina, mas precisamos entender que isso não será uma coisa rápida. A escola precisa se programar e pensar como se dará esse retorno, no que diz respeito a espaço, quantidade de alunos e outras questões. Tem a questão da higienização na escola pública, às vezes não temos nem água. As autoridades têm que pensar em investimentos nestas questões básicas, bem como nos espaços, em treinamentos para essa nova rotina. No âmbito privado, no qual também atuo, já há mais planejamento e investimentos visando maior segurança, pois tudo isso pode se tornar uma nova rotina.

Tem também o uso da máscara, tenho pensado muito sobre isso, pois há muita resistência por parte de alguns pais que esquecem que não é só na escola que o filho precisa usar. Vejo crianças na rua, nos parquinhos, sem a máscara. São coisas que nós, como escola, vamos ter que começar a discutir com as famílias.

Tenho questionado acerca do nosso município [Macaé], que entrou na zona verde e com isso abre bar, restaurante, academia e vai distanciando as escolas ainda mais da reabertura. A preocupação é com o aumento da circulação de pessoas nas ruas, mas outros setores vão sendo liberados. Qual a importância da instituição [escola] para a sociedade? O que é essencial afinal?. Enfim, mas para a frente nós vamos descobrir tudo isso...

NESANE: Na sua opinião, qual o aprendizado a pandemia traz para a educação? Mesmo quando a pandemia terminar, quais impactos você imagina que haverão no ensino?


Sonerline: A comunicação, a aproximação com a família é um grande ganho. Esse é um dos ganhos que espero não perder. Adequações estruturais e a entrada da tecnologia pra dentro da escola também é outra questão, que a gente vai ganhar. Com o aprendizado na experiência durante a pandemia, algumas mudanças nas práticas pedagógicas utilizadas na escola também devem ocorrer, o que será outro ganho.


Talvez o impacto maior seja o desvendar da desigualdade educacional neste país. Sempre existiu, mas agora está visto e tomara que a gente cresça com esse impacto.

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